O instalador termina a tubulação de um VRF com doze evaporadoras, pressuriza com nitrogênio no fim da tarde e volta na manhã seguinte. O manômetro do manifold marca menos do que marcava na véspera. Vazamento? Ou foi a madrugada fria na cobertura? Sem dado de temperatura, a discussão com o cliente começa ali, e muitas vezes termina com horas de espuma em solda que estava boa.
O teste de pressão com nitrogênio em refrigeração existe para provar que a tubulação de campo está estanque antes do vácuo e da carga de fluido. Este guia é para quem instala VRF, chillers e câmaras frias: como conduzir um teste de 24 horas, separar queda real de efeito térmico e entregar a prova ao cliente.
Por que pressurizar com nitrogênio seco
Nitrogênio seco é inerte, não carrega umidade e não alimenta combustão:
- Umidade: ar comprimido leva vapor d'água para dentro do circuito, e tudo o que entrar vai ter de sair depois, no vácuo.
- Segurança: oxigênio em contato com óleo sob pressão é risco de combustão. Nunca use oxigênio, nem ar comprimido, para pressurizar um sistema de refrigeração.
- Refrigerante não é gás de teste: usar o próprio fluido desperdiça carga e, se houver vazamento, manda gás para a atmosfera.
Teste pneumático guarda energia
Gás comprimido acumula muito mais energia que água na mesma pressão; se uma solda romper, a expansão é violenta. Use sempre regulador no cilindro (a pressão do cilindro é muitas vezes maior que a de teste) e válvula de alívio ajustada acima da pressão de teste e abaixo do limite do sistema. Isole a área durante a pressurização e enquanto o sistema estiver sob pressão, e defina um responsável técnico pelo procedimento. Em casa de máquinas, lembre que o nitrogênio liberado desloca o oxigênio: despressurize para área ventilada.
Pressão e duração do teste: quem define é o fabricante do equipamento
Não existe um número único. Pressão de teste, tempo de espera e critério de aceitação vêm do manual de instalação do fabricante do equipamento (e do projeto, quando ele pede algo além) e dependem do fluido e do tipo de sistema. Anote no relatório de onde saiu cada valor. No manual, confira:
- Pressão de teste e se ela é aplicada de uma vez ou em etapas (exemplo hipotético: um degrau baixo para achar vazamentos grosseiros, outro intermediário e só então a pressão final).
- Duração e critério de aprovação, inclusive como a temperatura deve ser considerada. Testes de 24 horas são comuns em VRF, justamente o período em que a temperatura ambiente mais varia.
- Quais válvulas ficam fechadas: se a unidade externa fica isolada pelas válvulas de serviço, o teste é da tubulação de campo e das evaporadoras.
Escolha da faixa do manômetro
Antes de tudo, confira a pressão de teste no manual: em sistemas com fluidos de alta pressão ela pode passar de 30 bar, e aí a faixa descrita abaixo não serve.
Para julgar quedas de décimos de bar, o instrumento precisa enxergar centésimos. O LEO Record na faixa -1…30 bar cobre pressões de teste com folga abaixo de 30 bar e ainda lê vácuo relativo. A folga é necessária porque o sol aquece a linha e a pressão sobe: 28 bar estabilizados a 32 °C chegam a cerca de 29,7 bar se o gás aquecer até 50 °C. As especificações dessa faixa:
| Especificação (faixa -1…30 bar) | Datasheet | O que significa no teste |
|---|---|---|
| Resolução | 10 mbar | Mostra variações de 0,01 bar |
| Erro total (0…50 °C) | ±0,1 %FS | Cerca de ±0,03 bar em toda a escala |
| Sobrepressão | 60 bar | Proteção contra excesso acidental, não faixa de uso |
| Temperatura | Registrada com a pressão, precisão típica 0,5 °C | Permite corrigir o resultado |
| Memória | ~57.000 leituras (intervalo ≤ 15 s) | 24 h a cada 10 s = 8.640 leituras |
| Trabalho / proteção | 0…50 °C / IP65 | Instrumento à sombra, nunca no sol da cobertura |
| Conexão | G 1/4" (outras sob encomenda) | Precisa de adaptador para a válvula de serviço |
Se o manual pedir mais de 30 bar, ou um valor colado nesse limite, essa faixa não serve: os 60 bar de sobrepressão protegem o sensor, mas não são faixa de medição. A próxima faixa padrão, 0…300 bar, tem resolução de 100 mbar e erro de cerca de ±0,3 bar, grosseira demais para esse julgamento. Consulte a equipe sobre faixas sob encomenda.
Passo a passo do teste com registro
- Configure antes de ir para a obra. No software Logger da KELLER (módulo Writer), escolha o intervalo: com 10 s, 24 horas ocupam 8.640 leituras e a memória dura cerca de 6,6 dias, folga para um teste que se estenda. Grave no instrumento os dados da instalação (obra, sistema, circuito). Se quiser, programe o início quando a pressão passar de um limite; veja as opções em registro por intervalo ou por evento.
- Zere na atmosfera. Na faixa -1…30 bar, o zero de fábrica é o vácuo absoluto (faixas acima de 61 bar abs ou com sensor relativo já vêm zeradas na atmosfera). Com o instrumento aberto para o ar, use a função ZERO SET: a partir daí ele lê pressão manométrica, como o manifold.
- Monte o ponto de medição com um adaptador firme entre a conexão G 1/4" e a válvula de serviço, e teste a montagem com espuma. Conexão provisória vazando é a causa mais boba de teste reprovado.
- Posicione as válvulas conforme o manual, inclusive solenoides e válvulas de expansão eletrônica.
- Pressurize pelo regulador, em etapas se o manual pedir. Em cada degrau, acompanhe o visor por alguns minutos: queda rápida no degrau baixo é vazamento grosseiro, que se acha antes de subir mais.
- Feche e desconecte o cilindro. Com o regulador ligado, o cilindro repõe o que vaza e o teste não prova nada.
- Espere estabilizar. A compressão aquece o gás, e a pressão cai nos primeiros minutos enquanto ele esfria até a temperatura do tubo. A pressão inicial do teste é a leitura estabilizada.
- Proteja o instrumento: à sombra, dentro de 0…50 °C, fora do caminho de quem circula. O IP65 dá conta de poeira e respingos, mas o instrumento não deve ficar submerso.
- Descarregue e analise no módulo Reader: gráfico de pressão e temperatura e exportação para o Excel, onde você faz a correção pela temperatura (fórmula abaixo).
- Despressurize com controle, para área ventilada, antes do vácuo.
Lendo o resultado: queda real x efeito da temperatura
Com volume praticamente constante, a pressão absoluta do nitrogênio varia cerca de 0,33% por °C na faixa ambiente. Perto de 28 bar, isso dá aproximadamente 0,1 bar por grau. A explicação completa está em por que a pressão cai no teste sem ter vazamento; aqui vai a aplicação direta.
Pcorrigida = (Pfinal + Patm) × Tinicial / Tfinal − Patm
pressões em bar, temperaturas em kelvin (°C + 273,15), Patm ≈ 1,013 bar ao nível do mar
Exemplo resolvido
Exemplo hipotético: 28,00 bar estabilizados às 15h, com o registrador marcando 32 °C. Às 7h do dia seguinte, 19 °C.
- Sem vazamento, o esperado seria (28,00 + 1,013) × 292,15 / 305,15 − 1,013 = 26,76 bar: 1,24 bar a menos só pelo frio.
- O registrador marcou 26,45 bar. Corrigindo para 32 °C: (26,45 + 1,013) × 305,15 / 292,15 − 1,013 = 27,67 bar. Há perda real de cerca de 0,33 bar, bem acima do erro de pressão do instrumento (cerca de ±0,03 bar) e do efeito da incerteza de temperatura (0,5 °C equivale a cerca de 0,05 bar). Vale procurar o vazamento.
Com manifold e duas anotações, os dois casos parecem iguais: "caiu mais de 1 bar durante a noite". Com pressão e temperatura no mesmo arquivo, a diferença aparece.
O formato da curva também fala
- Efeito térmico: a pressão cai junto com a temperatura do fim da tarde até o amanhecer e volta a subir quando o sol bate. A curva de pressão espelha a de temperatura.
- Vazamento: a pressão desce de forma contínua, inclusive nas horas de temperatura estável.
- Atalho no Excel: crie uma coluna com (P + 1,013) / (T + 273,15). Constante, o sistema está estanque; caindo sem parar, há perda de gás.
Um cuidado: a temperatura registrada é a do sensor do instrumento, no ponto de conexão. Em VRF, a tubulação passa por forro, shaft e cobertura, cada trecho com sua temperatura. Dê mais peso aos períodos de temperatura estável e, em linhas muito expostas, meça também a temperatura do tubo em pontos representativos.
E o vácuo? O LEO não substitui o vacuômetro de mícrons
O LEO Record na faixa -1…30 bar lê pressão negativa, mas com resolução de 10 mbar. Como 1 mbar equivale a cerca de 750 mícrons de mercúrio, cada dígito do visor representa uns 7.500 mícrons. O nível de vácuo e o teste de retenção pedidos pelos fabricantes (em geral em mícrons, às vezes em Pa ou Torr) exigem um vacuômetro de mícrons.
O registrador pode, no máximo, documentar de forma grosseira que o sistema foi colocado em vácuo e não voltou em direção à pressão atmosférica. Se não for registrar essa etapa, retire o instrumento antes de evacuar: toda conexão extra é um ponto a mais de vazamento.
Registrador x manifold: o que cada um prova
O manifold continua sendo a ferramenta para pressurizar, evacuar e carregar. O registrador é a prova do teste:
| Pergunta do cliente ou da fiscalização | Manifold analógico com anotação | Manômetro registrador |
|---|---|---|
| Qual era a pressão no início e no fim? | Sim, se alguém anotou | Sim, com data e hora |
| O que aconteceu durante a madrugada? | Não há registro | Cada leitura no intervalo configurado |
| A queda foi temperatura ou vazamento? | Sem dado de temperatura | Pressão e temperatura no mesmo arquivo |
| O teste durou o tempo pedido? | Depende da palavra do técnico | Início e fim gravados |
| Qual instrumento mediu? | Raramente identificado | Número de série no arquivo |
| O vácuo atingiu o nível do manual? | Não: use vacuômetro de mícrons | Não: use vacuômetro de mícrons |
Outra vantagem: tirar o manifold durante as 24 horas elimina mangueiras e engates do volume em teste, e cada um deles seria um possível ponto de vazamento.
Checklist de entrega para o cliente
- Identificação da obra, do sistema e dos circuitos testados.
- Fluido de teste (nitrogênio seco) e o manual de onde saíram pressão, duração e critério.
- Instrumento: modelo, número de série e certificado de calibração.
- Horário de início e fim, pressão inicial estabilizada e pressão final.
- Gráfico de pressão e temperatura do período inteiro, com a pressão final corrigida e a conta mostrada.
- Resultado do vácuo, medido com vacuômetro de mícrons.
- Vazamentos encontrados, correções e reteste, se houver.
- Técnico executante e responsável técnico, com assinatura.
O modelo de relatório com gráfico de pressão serve de base também para o teste com nitrogênio. Sobre a calibração: a Kelltech emite certificado de calibração rastreado, mediante solicitação, junto com a compra ou como serviço — veja como funciona a calibração de manômetros digitais. Para ver o registrador em outros tipos de teste, consulte o guia do manômetro digital com registrador.
Vai entregar um VRF ou uma câmara fria com teste documentado? Conte para a nossa equipe a pressão de teste do manual, a duração e o tipo de sistema, e indicamos a faixa e os acessórios do LEO Record para o seu caso. Fale com um especialista da Kelltech.
Fale com um especialista e encontre o produto certo para a sua aplicação.Equipe técnica da Kelltech, distribuidora oficial KELLER no Brasil.
